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MARY: O 'BLACK POWER' NA LITERATURA28/05/18

MARY ARANTES CONTA SUA EXPERIÊNCIA COM A LITERATURA NEGRA

Ainda sob a comoção que um casamento real provoca no mundo e sobre o acontecido, uma plebeia, afrodescendente, casar-se com um nobre, é que venho a vocês falar de um assunto que muito tem me tirado do sério: literatura de autoria negra, mas este assunto não é conto de fadas.

Faço aulas com o mestre Reinaldo Martiniano Marques, que nos colocou este tema para estudo neste semestre. Aqui relato um pouco sobre os livros lidos, com a intenção de incentivar alguns de vocês a conhecerem e a se juntarem ao coro de vozes negras, pela busca de um lugar ao sol. Não, ele não veio com a falsa Lei Áurea, e muito ainda precisa ser feito. Por exemplo: no quesito literatura, a FLIP 2016 de Paraty foi batizada de Arraiá da Branquidade, pela ausência de escritoras negras. Era preciso repensar a representatividade delas nesse evento. Em 2017 participaram do evento mais escritoras que escritores, além de uma forte presença de autores negros.

Como pude viver 61 anos, como leitora voraz, sem ter me dedicado a este assunto?! Ler estes livros pela óptica de cada autor é como lidar com algo novo, mas todas as questões neles colocadas são seculares: a escravatura, o preconceito, a diáspora, a pobreza, a pouca representatividade... Representatividade esta sentida num mercado literário consolidado, que torna invisível a produção de autores e autoras negros.

Carolina Maria de Jesus

   

Tudo começou com o livro Quarto de Despejo, 1960, de Carolina Maria de Jesus, uma catadora de lixo, descoberta pelo jornalista Audálio Dantas. Essa mulher, negra e favelada, escreveu sobre sua vida de forma visceral. O livro virou um best-seller, foi traduzido em 16 idiomas e vendido em mais de 40 países. Ela é hoje a escritora negra mais estudada fora do Brasil e, aqui, quase uma desconhecida pelos leitores leigos.

Conceição Evaristo, escritora mineira de Belo Horizonte, tem me comovido com seu premiado livro de contos: Olhos D’Água é de uma beleza doída, uma tristeza “doce”, é desse modo que ela denuncia a realidade social discriminatória. Nele, as questões sociais e raciais são recorrentes. A grande maioria dos personagens de Conceição são mulheres, uma verdadeira galeria. Muda o personagem, de livro para livro, de conto para conto, mas as histórias se repetem: morte, suicídio, pobreza, alcoolismo, gravidez precoce. Palavras como “dissentir”, “deslembrar”, “despossuir” e “despertencer” me fizeram ir ao dicionário, tamanho desconhecidas do meu viver. Dissentir...

Dela também, Ponciá Vicêncio. Nele a autora explora a fundo as sucessivas perdas, a morte do avô, do pai, dos filhos, a separação da mãe e do irmão. As palavras por ela são escolhidas a dedo, num linguajar bem próximo da oralidade, dos casos aprendidos com a mãe e a avó. No nome Ponciá, o acento é quase uma dor. Aguda.

Um defeito de cor, título de livro da também mineira Ana Maria Gonçalves, tem sido ultimamente um dos mais aclamados, com quase mil páginas. É um verdadeiro tratado sobre escravidão e africanidades: costumes, crenças e linguajar de uma época são ali retratados, reconstrói os modos de vida dos africanos, portugueses e brasileiros no tempo da escravidão. Nele descobri (entre tantas outras riquezas) que a palavra “salamaleco” (saudação, comprimento) vem da expressão árabe Salam Alayk, que significa “a paz esteja contigo”. Você sabia que dançar capoeira era proibido e considerado crime de vadiagem?! E que pão de açúcar era nome dado a uma forma, uma espécie de pote de barro, onde era colocado o caldo da batida do açúcar? Crioulo era o termo dado aos pretos nascidos no Brasil e, quando o negro pleiteava um cargo público (sec. XVII e XVIII), vinha sempre a recusa, o cargo não era dado e a justificativa era “defeito de cor”, nome dado ao livro. Não era permitido que pretos, pardos e mulatos exercessem qualquer cargo importante na religião, no governo ou na política.

Em meio às leituras, meu marido passava e me perguntava se eu estava gostando, tentava falar e me sentia muda. Incapaz de tecer comentários. Em meio ao ensimesmamento, descobri que jamais poderia falar com propriedade do que não vivi e nem como eles, senti e descobri que a isso se chama: O lugar da fala, que também é nome de outro livro da filósofa e ativista Djamila Ribeiro, que hoje assina página na revista Elle e palestra por todo o mundo.

Apesar da mudez que dói, descobri que a literatura pode sim ser uma ferramenta importante, porque ela tem a capacidade de me colocar no lugar do outro e gritar junto com ele.

Descobri que os livros escritos sobre escravidão no Brasil foram escritos por escritores brancos, da elite, como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, e outros. Lá na frente se descobre que tudo tinha sido uma grande falácia, afinal, a história é sempre contada pelo ponto de vista do vencedor e, na maioria das vezes, vencedor masculino.

Deixemos os livros e voltemos, por exemplo, ao evento de moda recente na cidade, o Minas Trend. O que se viu nos desfiles, como há muito não se via, foi um desfilar de cabelos eriçados, black power e outros tipos. Que esta conquista não seja apenas um modismo a mais, que a liberdade de ser o que se é, e que foi tirada de muitos, seja mantida. Durante anos nos submetemos à ditadura do alisamento capilar (nele me incluo), uma forma de embranquecimento para que o ser aceito fosse possível. Por isto considero desfilar estes cabelos uma grande conquista.

Modelos que cruzaram a passarela da Plural durante o último Minas Trend

Nessa pesquisa a que tenho me dedicado nos últimos meses, descobri inclusive vídeos sobre como deixar de alisar o cabelo, e a esta fase em que metade do cabelo fica liso (pontas) e em que a raiz vai encaracolando, se chama fase de transição capilar. Descobri também salões em BH, como o da Regina Coeli, com belas atitudes. Regina é contra a progressiva e uso de formol. Ela estimula suas funcionárias e clientes a assumirem, como ela, o uso do cabelo natural, ensinando-as cuidados e o que fazer durante esta fase de transição. Fase esta em que me incluo, sem saber se serei capaz de ir até o final desejado, a volta ao cabelo encaracolado.

                                                               

Maílda Costa, querida amiga, trocou as grandes madeixas alisadas por um cabelo curto e natural. Assumir sua beleza e seus valores afros tem sido uma grande conquista, descoberta diária de uma nova vida, sem amarras e sem bobs.

Tenho ido, e convido vocês a também fazerem o mesmo, aos debates sobre o tema na cidade. Recentemente fui ao Museu de Minas e Energia assistir ao projeto do coletivo de mulheres do @navaranda. Elas nos mostraram projetos e atitudes simples e possíveis, que estão sendo tomadas em prol de minorias negra, LGBT, dentre outras. Um verdadeiro exemplo.

Semana passada, a Casa Idea promoveu um debate com Áurea Maria, Roger Deff, Sérgio Pererê e Leda Martins, um bate-papo enriquecedor em que questões marcantes foram colocadas. Leda falou sobre a representatividade dos negros nas novelas. Citou os trabalhos que Tais Araújo, Camila Pitanga e Juliana Paes têm feito. Todas fazem sempre o mesmo tipo de protagonista, ou seja, “Precisamos ter representatividade sim, mas é preciso também saber que tipo de representatividade estamos tendo”, disse.

Negros que não se sentem negros precisam de se somar ao coro da luta pela afirmação. Fecho os olhos e fico feliz em imaginar que com o casamento de Meghan e Harry nunca mais o sangue real será azul.

#marynaárea

MARY ARANTES (COLAB ESPECIAL)

FOTOS ACERVO PESSOAL/ GUILHERME SIDRIM/ DIVULGAÇÃO 




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COMENTÁRIOS (1)


claudio - 27/05/18


Adorei o texto! Parabéns Mary!





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