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SOBRE RONALDO, GENI, DENISE, ROBERTO...02/10/18

Nossa colunista está em clima de Primavera

A moda sempre se inspirou na natureza. Frequentemente me perguntam se no verão (não importa de qual ano) vai usar borboletas, flores e folhas e, se no inverno, vai usar estampas de onça e toda sorte de felinos. Nem é preciso responder... tem ícones que se tornam eternos e a forma de explorá-los nunca se esgota.

Arranjos do Museu de Grandes Novidades, no casamento de Juliano Arantes e Leca Novo

Nas viagens internacionais à cata de novas paisagens, e sempre apaixonada por Nova York, cidade que visitava duas vezes por ano, um trecho do guia da jornalista Kátia Zero sempre me acompanhava: “Que melhor metáfora para a moda do que um jardim? Sempre se descartando, sempre se reinventando. Oferecendo o inesperado com constância. Mantendo-se eternamente novo. Nos proporcionando sensações simultâneas de otimismo e continuidade...”.

Essa lição de mudança talvez seja uma das melhores coisas que herdei da moda. Hoje, amarelo, depois de amanhã, preto. Agora é a vez do curto, depois certamente virá o longo. Para hoje tempo bom, amanhã pode chover. Miojo no almoço e quem sabe à noite um jantar maravilhoso?! A avenca e a samambaia já estiveram em baixa (não na minha casa!), as dálias também e, hoje, elas voltaram.

Nas décadas de 1970/1980, a visionária estilista Rei Kawakubo (Commes des Garçons), que com seu conceito de antimoda sempre desafiou nossas ideias sobre o papel da moda na nossa cultura contemporânea, abriu a primeira loja temporária que ouvi falar. Era chamada de loja-kamicaze, isto mesmo, que como os pilotos suicidas, já nasceu sabendo a data de findar. 

Hoje essas lojas são conhecidas como pop-up, e foi assim que abriu no shopping DiamondMallMaPerle Public Experience, que ficará no ar até dia 14 de outubro. Ticha Ribeiro, criadora da marca, trouxe da área de produção de moda toda sua expertise e percebeu cedo que nada no mundo estava isolado, pelo contrário: as conexões se formam e a cada dia ficam mais evidentes. Se a moda lança roxo, daqui a pouco a famosa marca de sofás o vestirá da mesma cor. Que o diga Adriana Barra, que imprime suas estampas em roupas, geladeiras e sofás.

As adoráveis combinações de Roberto Pena, da Flor.

Semana passada estive na loja da Ticha para uma “ativação”, sim este agora é o nome de ações com propósitos, motivo para encontros, afinal a moda precisa sempre de um novo linguajar e de clientes. Fui assistir a uma delas, a oficina de arranjos florais por Roberto Pena, cujo currículo inclui anos trabalhando em Nova York e ninguém menos como mestre que o florista Ronaldo Maia. Roberto comentou isso na oficina e percebi, para minha surpresa, que quase ninguém na plateia tinha ouvido falar de Ronaldo Maia. É fato que a turma era mais de jovens... Saibam que ele foi o mago dos arranjos florais impensados e, segundo Denise Magalhães, da Verde Que Te Quero Verde, “entre as décadas de 1970 e 1990, ele foi considerado o melhor florista do mundo”. Foi o criador e inovador dessa mistura inusitada de flores e frutos que se faz hoje, com súditos como Vic Meirelles, que já declarou em entrevista que teve sua carreira de florista despertada quando ganhou, na década e 1980, o livro de Ronaldo Maia "More Decorating With Flowers", que muito lhe inspirou.

Reprodução da capa do livro de Ronaldo Maia

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Para quem não sabe, Ronaldo Maia é mineiro e sempre residiu em NY, onde teve por anos uma loja na Park Avenue. Aqui em BH abriu a Casa Maia, uma casa de época linda, nos arredores da Igreja da Boa Viagem, com ninguém menos que Denise Magalhães como sócia. Denise, florista que impera com seu gosto excepcional e sua loja com nome de poesia, é flor que não poderia deixar de ser citada nesse jardim.

Vale contar um segredo. Sempre fui exibida e vivia com o livro do Ronaldo aberto, “remedando” o moço nas minhas incursões caseiras. Sou dessas que fica sem comer, mas não fica sem flor em casa. Eis que arrumei uma arrumadeira e aos poucos fui ensinando o que tinha aprendido. Geni era seu nome e já veio com o dom de ser florista. Ela ia no mato (Serra do Curral), catava um tronco pelado, com folhagens avermelhadas e a casa ganhava outra vida, a gente ficava feliz e nem sabíamos naquela época que este arranjo era, na verdade, um crime ambiental!

Os arranjos da Flora da Série também estão no coração de Mary 

Não tive dúvidas: matriculei Geni num curso de ikebana na Igreja São Sebastião no Barro Preto. Foi numas três aulas e não quis voltar. O dom que já tinha mais as aulas mixurucas que dei mais o livro do Ronaldo Maia foram o bastante para formar essa menina. Por onde anda Geni? O que tem feito essa flor?

Para Geni, com amor,

 

MARY ARANTES

FOTOS: BARBARA DUTRA E REPRODUÇÃO 

@coisasdamary

 

 

 



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