MÃE DO PAI

SOBRE A INEXORÁVEL DEGRADAÇÃO20/06/19

Quando as pernas não obedecem mais....


Compartilho de muitos dos sentimentos de uma mãe de verdade (aquela que tem filhos), mas nos últimos dias finalmente visualizei com clareza a nossa grande diferença. 



Enquanto elas tendem a acompanhar uma evolução positiva dos filhos (um dia engatinham, daí a pouco tempo andam, falam, vão pra escola e por aí vai), a sina de uma “progenitora” de pai ou mãe é lidar com um outro tipo de escalada, a das desventuras. 

Sim, idosos, como quaisquer outros seres humanos noutras idadesos noutras idades, têm dias bons e outros maus, mas seu destino é a inexorável degradação.

Há cerca de um mês, incorporamos a cadeira de rodas à rotina do paizinho e, toda vez que ele é provocado a sair dela e usar os membros inferiores, percebo sua dificuldade crescente de fazer chegar à perna esquerda a mensagem de que ela precisa se mover pra que todo o corpo consiga sair do lugar. 

Diante da nossa insistência para que tente fazer funcionar um dos comandos aparentemente mais básicos do corpo, ele respondeu cabisbaixo, na última vez: “Minha perna já não me obedece mais”. 
Como boa mãe e Pollyanna que sou, eu bem que gostaria de poder dizer algo positivo em resposta ou prometer uma melhora rápida, mas neste momento quem atua é a filha inexperiente que muda de assunto e aborda banalidades, como o futebol. Mentir não está no script, ainda que o coração se engane e encha-se de esperanças na manhã seguinte. 

Pai, estamos no caminho de volta, mas eu prometo segurar sua mãozinha gelada até reta da chegada. 

NATÁLIA DORNELLAS
FOTO: ARQUIVO PESSOAL 

 

No perfil @maedopai_, no Instagram, compartilho as dores e delícias de cuidar do meu, diagnosticado há alguns meses como portador de "degeneração cortico-basal", um mal parkinsoniano de rápida evolução. Os textos de lá agora terão espaço por aqui também.

 

 

 
 
 

 

 



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