MÃE DO PAI

A ARTE DE OUVIR O SILÊNCIO #MAEDOPAI07/03/19

Meu pai anda muito econômico com as palavras... ao menos comigo

Quando minha mãe nos deixou, há 12 anos, combinei com ele que telefonaria duas vezes por dia pra saber como estavam as coisas na casa agora mais vazia. 

A experiência durou poucas semanas até que meu pai me disse que não tinha assunto para tantos telefonemas e passei para uma ligação diária, e sempre à noite, para que ele tivesse mais tempo de juntar assunto. 

Assim eu fingia que estava muito interessada nos informes sobre nossa Guarani (quem morreu, quem se casou e por aí vai) e sondava como andava ele, um homem fechado que devia estar sofrendo (e muito) calado. 

Desde que adoeceu, meu pai voltou a economizar nas palavras, em especial comigo. Agora quando ligo pra seu celular, ele atende assim: “oi, Nat, um beijo”. Ou seja, resolve tudo numa só frase e depois fica por conta de responder bem baixinho às minhas perguntas sobre sua noite de sono, a temperatura na Cidade Jardim e outras coisas banais, afinal poucas vezes na vida entramos no mérito das profundas.

No feriado, resolvi buscá-lo para almoçar e dar uma volta para tentar conversar um pouco mais, ouvir sua voz, mas a missão não foi bem-sucedida. Calado e pensativo, ele só acenava com a cabeça e respondia tão baixo que, no meio da viagem, eu desisti daquela entrevista forçada e dei um grau no rádio do carro. 

Foi só chegarmos à sua residência que abriu a boca e contou tim-tim por tim-tim às cuidadoras como haviam sido o almoço e o passeio. 

Imagino que mães se sintam um pouco assim (solitárias e inadequadas) quando tentam se aproximar dos filhos adolescentes e saber mais sobre aquela viagem de férias com os amigos. Outra coincidência entre elas (mães) e eu (filha-mãe) é que a gente não desiste deles por causa disso e no dia seguinte faz tudo de novo. Dizem que o amor tem dessas coisas. 

 

NATALIA DORNELLAS

FOTOS: ARQUIVO PESSOAL

No perfil @maedopai_, no Instagram, compartilho as dores e delícias de cuidar do meu, diagnosticado há alguns meses como portador de "degeneração cortico-basal", um mal parkinsoniano de rápida evolução. Os textos de lá agora terão espaço por aqui também. 



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